O que a campanha #MaioLaranja pode nos ensinar sobre o abuso sexual infantojuvenil

Tal medida é significativa por reforçar que as violações do corpo e da mente existem, estão vivas e mais próximas de nós do que imaginamos

Araceli Cabrera Sánchez Crespo vivia com sua família. mãe, pai, irmão. tinha 9 anos quando a sua ausência preocupou todos que viviam ao seu redor. o seu pai, numa tentativa desesperada de encontrá-la, fez o rosto da menina ser espalhado com inúmeras imagens pela cidade (Vitória/ES).

mas após longas investigações, os alvos não estavam longe. seis dias depois descobriram que a menina estava morta. o desaparecimento se converteu em ser o pior crime cometido a uma criança naquela época. tão cruel, tão impossível de acreditar e descrever.

Araceli foi silenciada com ácido. irreconhecível e sendo, antes de tudo, estuprada e agredida. a comoção nacional apontou para a criação de um dia específico para a conscientização das pessoas sobre a violência e abusos sofridos por crianças e adolescentes. principalmente porque, no caso da menina Araceli, os acusados nunca foram punidos, apesar das provas e totais reconhecimentos que pudessem incriminá-los.

em 1976, o romance-reportagem ‘Aracelli, meu amor’, escrito pelo jornalista José Louzeiro, foi censurado durante a ditadura militar a pedido dos advogados dos acusados.

apesar de Paulo e Dantinho serem os principais suspeitos, e de haver testemunhas contra eles, jamais foram condenados pela morte da Araceli. de acordo com o relato do autor do livro ‘Araceli, Meu Amor’, o caso produziu 14 mortes, desde possíveis testemunhas, até pessoas interessadas em desvendar o crime.

Paulo e Dantinho foram culpados. quando? julgados em qual momento? completos os quase cinquenta anos sem a menina Araceli e sem a devida justiça, as discussões sobre denúncias, abusos e extrema violência às crianças e adolescentes continuam. a Lei nº 9.970 estabelece 18 maio sendo o dia para conscientizar a sociedade sobre a gravidade de violências contra menores.

nesse sentido, o artigo escrito por Raquel Laudares ao G1, aponta que no Conselho Tutelar de duas regiões da Zona Oeste de São Paulo, as denúncias de agressão física, abuso sexual e maus-tratos contra crianças e adolescentes aumentaram 670% de janeiro a abril deste ano em relação à mesma época do ano passado. com a pandemia, jovens e crianças tendem a conviver com os seus agressores, exatamente quem deveria protegê-los.

mas a denúncia, ela funciona?

a resposta é sim, mas depende de inúmeros fatores e são esses os fatores que escondem outros milhares de casos, fazendo com que vítimas convivam com as suas dores pelo resto de suas vidas.

essa denúncia é segura para quem?

ainda no artigo escrito por Raquel, estima-se que menos de 10% dos agressores são punidos.

resistência conjunta

diálogos sobre o assunto, esse é o caminho. a criação de materiais (textos, vídeos, cartilhas etc) que não só incluam o “disque 100” (importante mecanismo para denúncia!), mas forneçam às vítimas informações que possam revesti-las de conhecimento necessário para entender as raízes e frutos gerados com a violência por elas suportadas. em muitos casos, esses “frutos” são consequências que a própria vítima carrega. a culpa, o receio de viver, a insegurança (por si e para viver) são somente alguns desses sentimentos. e, excepcionalmente em casos que envolvem crianças, a tendência de desenvolver mudanças de comportamento, hábitos, dores sem razão aparente etc.

para além dos diálogos com pessoas do convívio, graças ao Sistema Único de Saúde (SUS), inúmeros serviços existem gratuitamente, bem como sites de profissionais devidamente registrados em seus conselhos que publicam artigos informativos, e até encontros (online) sem custo para discutirem assuntos específicos.

a campanha Maio Laranja é uma medida significativa para que haja o lembrete constante de que as violações do corpo e da mente existem, estão vivas e mais próximas de nós do que imaginamos.

ouvir, dialogar, escrever, cobrar. busque o Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS) mais próximo, disque 100 para acionar o serviço de disseminação de informações sobre direitos de grupos vulneráveis e de denúncias de violações de direitos humanos. o enfrentamento é um importante passo para a cura das consequências que ficaram e/ou para uma convivência possível com o ocorrido.

artes e outros sentimentos / www.laryssaandrade.46graus.com

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