Doze horas / segundo andar 01

Tudo é caos e poesia, por isso algumas coisas precisam ser escritas

as histórias que me encontram não passam. elas ficam devagarinho. habitam pontos específicos da memória, povoam algum sentimento e me remontam.

em maio de 2019, um mês antes do meu aniversário, fui acordada por familiares às 5h. após uma noite de sorrisos, essa ligação me dizia que eu precisava ir ao hospital geral do estado. a coloração, as dores e a fraqueza do meu tio tinha um motivo: insuficiência renal crônica. foi aí que um caminhão carregado de medo encontrou a minha família. sabíamos o que iríamos encontrar. limitações renais, infelizmente, são comuns para os Andrade.

chegamos ao hospital. depois disso, as horas não passavam. dor, sangue, medicações, fome (…) num looping. enfrentamos os procedimentos básicos e esperamos a médica nos chamar. as horas não passavam. foram doze, no total. o letreiro escuro com números brilhantes em vermelho parecia piscar em câmera lenta. até que, não sei como, liberaram a entrada do meu pai, e ele conseguiu sentar ao meu lado. alívio. eu tinha o meu pai como companhia também — mesmo que sem conseguir fazer quase nada por nós naquele momento (e realmente não tínhamos muito o que fazer a não ser esperar).

chamam o número. entramos. a médica olha letra por letra, número por número. afetuosa e sem enrolação diz: “vamos arrumar uma vaga para ele no sanatório”. como assim, uma vaga? pensei. “a ambulância estará esperando vocês lá fora, mas antes, você precisa pegar uma autorização com a assistente social”. meu tio chorou enquanto dizia: “estou com medo”.

sala estreita, apertada, silêncio. “com licença, preciso de um documento que comprove o falecimento da minha avó”. ouço calada alguém perguntar. “e você?”. respondo que o meu tio será transferido para o hospital sanatório. “aqui está”. com a autorização em mãos busco outros corredores. localizo o motorista. “boa noite, moça. precisamos esperar mais um paciente e já sairemos”. concordo com a cabeça, explico ao meu tio, ligo para o meu pai que já saíra e informo o destino.

sirene ligada.

chegamos e logo ouvi a porta do pronto atendimento abrir. era o meu pai mais uma vez. chorei. mais familiares foram chegando. senti alívio. chorei. sentimos alívio. era chegada a hora de trocarmos de lugar, dormir, processar tudo o que tínhamos vivido e poderíamos viver.

“em qual quarto ele ficará?”

leito dois, quarto duzentos e um. segundo andar.

a cada dia tenho compreendido mais sobre o valor que a escrita tem para a minha vida. muitas cenas passam, moram em folhas de rascunho, mas sei que merecem bem mais do que isso. “segundo andar” é uma série sobre as minhas vivências pessoais — com familiares e outras pessoas — no hospital, desde 2019, a partir do início do tratamento de hemodiálise de um dos nossos. vemos, ouvimos, sentimos muito. injusto seria não transformar essas sensações em palavras.

artes e outros sentimentos / www.laryssaandrade.46graus.com