cresci muito próxima dos álbuns de fotografia da minha família, mas somente nos últimos anos fui tomada pela vontade de conhecer e escrever sobre histórias que passaram por eles (e por mim). nesse sentido, vovô me deu o nome da minha trisavó. conversamos por bastante tempo sobre pessoas que atravessaram a nossa existência.

coincidência ou destino, histórias são coisas que gosto de recriar por meio da imagem. quando me disseram que a minha avó era contadora de memórias e muitos gostavam de ouvi-la, bastante coisa se encaixou. foi como se tivéssemos nos encontrado depois de anos. a saudade foi para outro espaço num segundo (mas logo voltou).

minha avó tinha a fala doce. era calma, tinha um jeito próprio de dizer que nos amava. ela nos dava cheiros. sim, cheiros. outra coisa sagrada para ela eram as orações. ela orava diariamente às 18h. silêncio, pedidos, preces. ela se sentia viva quando se conectava com o céu. quando a perdemos, a sua despedida foi uma espécie de altar para todos que a conheciam. oração, canção, crença, esperança. em mim, a saudade. ela me deu saudade.

ao revisitar os álbuns da família, por mais que ela não esteja em todas as fotos, eu consigo enxergá-la. hoje, com quase doze anos do adeus, consigo enxergá-la em tudo. principalmente nas coisas que ela deixou. a casa tem o cheiro dela, os móveis, o santuário (que está exatamente como ela deixou); e a planta abaixo que, quando nela nasce uma flor, eu entendo o recado vindo de algum lugar encantado dizendo: estou sempre com vocês.

saudade é feito flor. minha avó é sempre primavera.

autoral | 2021

artes e outros sentimentos / www.laryssaandrade.46graus.com

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